quarta-feira, 22 de junho de 2016

Bocage

Não lamentes, ó Nize, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas teem reinado:


 
 
 
(Soneto de todas as putas)
 
 
 

terça-feira, 21 de junho de 2016

A caixa geral de depósitos, 1608

Rodrigues Lobo é conhecido pelo Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura /Vai formosa e não segura, mas tem outras  coisas muito interessantes. Poeta do reino, protegido da casa de Bragança, morreu afogado no Tejo em 1662.
Definiu precocemente uma certa forma portuguesa de estar. De Pastor Peregrino, Liv.I, Jornada Segunda:

E deste modo  com todo estou bem e nenhum me faz mal. Não digo verdades  que amarguem nem tenho amizades que  me profanem;  não adquiro fazendas que  outros me invejem, porque, neste tempo, das melhores  três cousas dele, nascem as mais danosas que há no mundo; da verdade, ódio; da conversação, desprezo; da prosperidade, inveja.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Uma ideia do debate europeu e dos refugiados, par René Char

O René, velho freguês  dos meus blogues, descoberto  pelo Sócrates quando esteve preso ( o que mostra que nem tudo é mau):

Homme, 
J'ai peur du feu
Partout  où  tu te trouves

Animal
Tu parles
Comme un  homme

( Arsenal, 1927-1929)

99% da poesia portuguesa actual:

domingo, 19 de junho de 2016

O Natal de João Miguel Fernandes Jorge

Comprei o primeiro em 1982:  Poemas escolhidos,  publicados pela Assírio ( col. cadernos peninsulares/literatura 21). Esta crítica balofa  "em João Miguel Fernandes Jorge, há uma hiperconsciência da brevidade da vida" pouco ou nada faz ganhar leitores ao Jorge. O artigo tem zero comentários. Fica aqui um.
 E fica também um pedaço , tirado da referida edição. É tão simples que dói:

E eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que 
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a  banda do Carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas  o meu Natal  é ainda o Natal  de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta.


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Betocchi , o católico, e problemas de tradução

Fundou com Bargellino a católica  Frontespizio. Católico, nem tanto místico, mais da aproximação epicurista e estóica. Pouco acarinhado fora de Florença.
O Rovine ( Ruínas) , de 1955, é muito perfeito na contenção desesperada. Abre assim:

Non è vero che hanno distrutto
le case, non è vero:
solo è vero in  quelo  muro diruto
l'avanzarsi del cielo.

traduzo assim:

Não é verdade que tenham destruído
 as casas; não é verdade :
a única verdade naquele muro destruído
é o avançar do céu.

Roberta   Payne traduz assim os dois últimos versos:

The only thing  that's true in that dilapidated wall
is the advance of the sun.

Abaixo os tradutores esperançosos.


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Era um Adolfo, mas Salazar não gostava

Voo sem pássaro dentro ( 1954): a única maneira de enfiar pássaro  em qualquer coisa  relacionada com a poesia. E mesmo assim...
Adolfo Casais Monteiro, outra vez.  Esquecido  nos dias de hoje pelos jornalistas culturais, mas a gente senta-o neste escanos periféricos que são os blogues. É um tipo de outro mundo, de um mundo em que não se podia escrever, dirigir ou falar. Graças ao botas de Santa Comba e  ao seu regime de contas em ordem.  Infelizmente, aldrabões como este  acham que é o capitalismo que asfixia  a cultura , fingindo esquecer estas amostras de cultura  libertária.

Bem, let's  look at the trailer.  Casais  Monteiro explica como a sociedade nos atraiçoa:

Como é possível  não ouvirmos o estertor das nossas vidas
quebradas de encontro ao pilar das barragens,
esbracejando nos redemoinhos, arrastadas
para o mar imenso da vida não cumprida...