segunda-feira, 20 de junho de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
O Natal de João Miguel Fernandes Jorge
Comprei o primeiro em 1982: Poemas escolhidos, publicados pela Assírio ( col. cadernos peninsulares/literatura 21). Esta crítica balofa "em João Miguel Fernandes Jorge, há uma hiperconsciência da brevidade da vida" pouco ou nada faz ganhar leitores ao Jorge. O artigo tem zero comentários. Fica aqui um.
E fica também um pedaço , tirado da referida edição. É tão simples que dói:
E eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto
subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do Carvalhal com ferrinhos
e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
Betocchi , o católico, e problemas de tradução
Fundou com Bargellino a católica Frontespizio. Católico, nem tanto místico, mais da aproximação epicurista e estóica. Pouco acarinhado fora de Florença.
O Rovine ( Ruínas) , de 1955, é muito perfeito na contenção desesperada. Abre assim:
Non è vero che hanno distrutto
le case, non è vero:
solo è vero in quelo muro diruto
l'avanzarsi del cielo.
traduzo assim:
Não é verdade que tenham destruído
as casas; não é verdade :
a única verdade naquele muro destruído
é o avançar do céu.
Roberta Payne traduz assim os dois últimos versos:
The only thing that's true in that dilapidated wall
is the advance of the sun.
Abaixo os tradutores esperançosos.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Era um Adolfo, mas Salazar não gostava
Voo sem pássaro dentro ( 1954): a única maneira de enfiar pássaro em qualquer coisa relacionada com a poesia. E mesmo assim...
Adolfo Casais Monteiro, outra vez. Esquecido nos dias de hoje pelos jornalistas culturais, mas a gente senta-o neste escanos periféricos que são os blogues. É um tipo de outro mundo, de um mundo em que não se podia escrever, dirigir ou falar. Graças ao botas de Santa Comba e ao seu regime de contas em ordem. Infelizmente, aldrabões como este acham que é o capitalismo que asfixia a cultura , fingindo esquecer estas amostras de cultura libertária.
Bem, let's look at the trailer. Casais Monteiro explica como a sociedade nos atraiçoa:
Como é possível não ouvirmos o estertor das nossas vidas
quebradas de encontro ao pilar das barragens,
esbracejando nos redemoinhos, arrastadas
para o mar imenso da vida não cumprida...
quarta-feira, 15 de junho de 2016
A Natureza
Queriam calor e praia ? Têm chuva.
Adolfo Casais Monteiro chamava a esta técnica de Pessoa a deslocação das zonas de interesse.
Versão Alberto Caeiro:
Versão Alberto Caeiro:
Como quem num dia de verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos.
terça-feira, 14 de junho de 2016
Wurde
Barrento , que o traduziu pela primeira vez para nós ( Cotovia, 1990), regista a intenção de Bobrowski: Wurde, a dignidade ( atitude) que permite deitar fora a dignidade. Belíssimo pretexto.
Bobrowski recebeu prémios literários na RFA e na RDA. Pouco lido? Talvez, mas que nos importa isso?
Abusa como um demente das árvores, dos pássaros, da água, mas é um poeta da paisagem, enfim, aceitemos. Apesar disso, uns pedaços bem esgalhados ( Sinais de tempo) :
Levo para os cálamos
a minha casa entrançada.
O caracol
inaudível
passa pelo meu telhado.
Gravado
na palma das minhas mãos
encontro o teu rosto.
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Verde e bom
Cesário, quando não está a dardejar os ricos do norte que comem as nossas frutas naturais, arranca estes passes de peito. O segundo verso é revolucionário.
Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
( 1875, orig. na Moisaco,nº6)
Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
( 1875, orig. na Moisaco,nº6)
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