domingo, 19 de junho de 2016

O Natal de João Miguel Fernandes Jorge

Comprei o primeiro em 1982:  Poemas escolhidos,  publicados pela Assírio ( col. cadernos peninsulares/literatura 21). Esta crítica balofa  "em João Miguel Fernandes Jorge, há uma hiperconsciência da brevidade da vida" pouco ou nada faz ganhar leitores ao Jorge. O artigo tem zero comentários. Fica aqui um.
 E fica também um pedaço , tirado da referida edição. É tão simples que dói:

E eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que 
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a  banda do Carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas  o meu Natal  é ainda o Natal  de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta.


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Betocchi , o católico, e problemas de tradução

Fundou com Bargellino a católica  Frontespizio. Católico, nem tanto místico, mais da aproximação epicurista e estóica. Pouco acarinhado fora de Florença.
O Rovine ( Ruínas) , de 1955, é muito perfeito na contenção desesperada. Abre assim:

Non è vero che hanno distrutto
le case, non è vero:
solo è vero in  quelo  muro diruto
l'avanzarsi del cielo.

traduzo assim:

Não é verdade que tenham destruído
 as casas; não é verdade :
a única verdade naquele muro destruído
é o avançar do céu.

Roberta   Payne traduz assim os dois últimos versos:

The only thing  that's true in that dilapidated wall
is the advance of the sun.

Abaixo os tradutores esperançosos.


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Era um Adolfo, mas Salazar não gostava

Voo sem pássaro dentro ( 1954): a única maneira de enfiar pássaro  em qualquer coisa  relacionada com a poesia. E mesmo assim...
Adolfo Casais Monteiro, outra vez.  Esquecido  nos dias de hoje pelos jornalistas culturais, mas a gente senta-o neste escanos periféricos que são os blogues. É um tipo de outro mundo, de um mundo em que não se podia escrever, dirigir ou falar. Graças ao botas de Santa Comba e  ao seu regime de contas em ordem.  Infelizmente, aldrabões como este  acham que é o capitalismo que asfixia  a cultura , fingindo esquecer estas amostras de cultura  libertária.

Bem, let's  look at the trailer.  Casais  Monteiro explica como a sociedade nos atraiçoa:

Como é possível  não ouvirmos o estertor das nossas vidas
quebradas de encontro ao pilar das barragens,
esbracejando nos redemoinhos, arrastadas
para o mar imenso da vida não cumprida...





quarta-feira, 15 de junho de 2016

A Natureza

Queriam calor e praia ? Têm chuva.
Adolfo Casais Monteiro chamava a esta técnica de Pessoa a deslocação das  zonas de interesse.
Versão Alberto Caeiro:

Como quem num dia de verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Wurde

Barrento , que o traduziu pela primeira vez para nós (  Cotovia, 1990), regista a intenção  de Bobrowski:  Wurde,  a dignidade ( atitude) que permite deitar fora a dignidade. Belíssimo pretexto.
Bobrowski recebeu prémios literários na RFA e na RDA. Pouco lido? Talvez, mas que nos importa isso?

Abusa como um demente das árvores, dos pássaros, da água, mas é um poeta da paisagem, enfim, aceitemos. Apesar disso, uns pedaços  bem esgalhados ( Sinais de tempo) :

Levo para os cálamos
a minha casa entrançada.
O caracol 
inaudível
passa pelo meu telhado.
Gravado
na palma das minhas mãos
encontro o teu rosto.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Verde e bom

Cesário, quando não está a dardejar os ricos do norte que comem as nossas frutas naturais, arranca estes passes de peito. O segundo verso é revolucionário.

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre  e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

( 1875, orig. na Moisaco,nº6)