quinta-feira, 9 de junho de 2016

Criminaliza agora este piropo

Graças a A. Cândido Franco e, sobretudo,  à melhor empresa pública portuguesa, podemos ler  coisas raras. Como João Lúcio. Maldito  no sentido literal porque ignorado, não reeditado, esquecido.
João Lúcio, do grupo da Renascença ( com Pessanha,  Pascoaes, Gomes leal etc) é o freguês de hoje.

De Na Asa do Sonho ( 1913) , uma coisa fabulosa.  Sobre um tema gastíssimo, um toque de calcanhar  precedido de uma chicuelina:

Que se gosto  de ver, aflita entre o cabelo,
O teu cabelo em chuva, uma rosa afogada,
É só para poder, mais tarde, descrevê-lo,
Com a rosa a sofrer, numa rima agitada.

terça-feira, 7 de junho de 2016

The mad dog

Etheridge. Quem quiser conhecer. 
Isto é o que se chama punch, suponho:

Lord she's gone done left me done packed / up and split
and I with no way to make her
come back and everywhere the world is bare
bright bone white crystal sand glistens
dope death dead dying and jiving drove
her away made her take her laughter and her smiles
and her softness and her midnight sighs--

Fuck Coltrane and music and clouds drifting in the sky
fuck the sea and trees and the sky and birds
and alligators and all the animals that roam the earth
fuck marx and mao fuck fidel and nkrumah and
democracy and communism fuck smack and pot
and red ripe tomatoes fuck joseph fuck mary fuck
god jesus and all the disciples fuck fanon nixon
and malcom fuck the revolution fuck freedom fuck
the whole muthafucking thing
all i want now is my woman back
so my soul can sing

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Fascismo na poesia e a opinião de Hatlen sobre as raízes marxistas do fascismo

D'Annunzio e Pound. Brasillach  não conta,  não era poeta, Pierre Antoine-Costeau ( irmão do mergulhador) também não.D'Annunzio trouxe-o algumas vezes aos blogues, pré-futurista, teve o seu lugar. Pound é de outra galáxia. É o único.

 Burton Hatlen, amigo de Ginsberg, académico, militante anti-Vietname e anti guerra do Iraque,  e fundador de campus literários marxistas-socialistas:


Hatlen explica duas coisas:
a) a conexão entre fascismo e marxismo,
b) por que motivo não há uma poesia fascista. 

A primeira ilustra o assunto que tanto incómodo causou recentemente cá na terra. A segunda serve-me: uma teoria geral da destruição não conhece a linguagem da criação.

domingo, 5 de junho de 2016

Bursa

I’d been waiting years
Until the Prophet came
He held forth all night
Smoked all my cigarettes
I didn’t understand a thing

( trad  Wiesiek Powaga 2007)

 Andrzej  Bursa era  um polaco e um  personagem cheio de humor. Nasceu em 1932 , publicou pela primeira vez aos 22 anos, morreu aos 25.  Desmente a maneira pomposa como os palúrdios citam a famosa frase.  O próprio  Adorno explicou  melhor depois ( Negative Dialectics):
"Perennial suffering has as much right to expression as a tortured man has to scream; hence it may have been wrong to say that after Auschwitz you could no longer write poems. But it is not wrong to raise the less cultural question whether after Auschwitz you can go on living--especially whether one who escaped by accident, one who by rights should have been killed, may go on living".

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Púbico/privado

Ulla Hahn defende que não existe separação entre o público e o privado , os dois pólos têm de estar sempre ligados e que  uma  das grandes contribuições do  movimento feminista foi tornar essa conexão óbvia de novo ( numa entrevista citada  aqui) . É capaz de ter razão.

Como é que isso aparece na poesia de Hahn? Por exemplo:

Faço o meu ninho na axila
do homem com o elmo de ouro. Se ele anda
eu imóvel ando também. Se ele dobra
o corpo eu em pé faço o mesmo.

( trad. de João Barrento)

quinta-feira, 2 de junho de 2016

O twitter em 1797

4 de Abril de 1797. Schiller escreve   a Goethe. Correspondem-se imenso. Nesse dia ,  sobre Filoctetes e  As Traquínias: as personagens  são máscaras e não indíviduos, sendo assim mais fácil manifestar a sua natureza. 
Goethe responde no dia seguinte ( um twiter  pré-histórico):  as personagens da poesia  antiga  traduzem, como as figuras da escultura , uma ideia abstracta, atingem  a perfeição graças ao que podemos  chamar de estilo.

Heranças do estilo? Por exemplo, Ungaretti, Sentimento del Tempo, 1933. Os mortos só conhecem  o som da relva a crescer, contentes de o homem não a pisar :

Hanno l'impercettibile sussurro,
Non fanno più rumore
Del crescere dell'erba,
Lieta dove non passa l'uomo.